Extrativismo das frutas na Amazônia brasileira



Campo Ecológico

Moradores do Bom Jardim(PA).Fonte: Rev. Globo Rural N°256
Em tempos de destruição dos agroecossistemas e avanço da agropecuária na Amazônia brasileira, o extrativismo vegetal ainda resiste em muitas partes dessa região, embora não tenha a mesma importância que antigamente, onde tivera o seu auge até 1953, onde a economia da Amazônia era essencialmente extrativa, uma vez que mais da metade da renda do setor primário provinha do extrativismo vegetal (HOMMA, 1990).
Entre os produtos de origem vegetal as frutas estão entre os produtos extrativistas que mais tem relevância nesse cenário. É comum nas feiras das cidades da Amazônia a imensa variedade de frutas nativas, uma grande parte delas extraída pelos povos que vivem em comunidades na zona rural ou em pequenos vilarejos. Um exemplo são os moradores do Bom Jardim, comunidade que fica à uma hora da capital Belém no Estado do Pará, eles são gente simples cuja vida depende exclusivamente do extrativismo. A pequena população dessa comunidade coleta as frutas e vão vender na maior feira de Belém o Ver-o-Peso.
No mercado do Ver-o-peso as variedades de frutas são grandes é como se este lugar fosse à porta de entrada para os produtos vindos da floresta. As frutas são desembarcadas na pracinha encostada no Forte do Castelo e negociadas ali mesmo, desde as três horas da madrugada, quando os barcos começam a aportar. No caso dos moradores do Bom Jardim alguns levam as frutas em canoas (feitas de tronco do pequiazeiro), chegando à feira eles vendem ao atravessador, ou marreteiro - aquele que vive de compra e venda de frutas no comercio informal.
Barraca de frutas no mercado do Ver-o-peso(PA)
 Entre as frutas extraídas da floresta para serem vendidas no mercado o bacuri é uma das que tem bom preço; a safra desta fruta inicia em fevereiro e se estende até março. Um bacurizeiro (Platonia insignis Mart.) adulto produz 400 frutos por ano, em média - algumas chegam até dois mil. O preço, no entanto, é compensador, podendo chegar do dobro da cotação do açaí (Euterpe oleracea) e o triplo do cupuaçu (Theobroma grandiflorum), que são outras frutas amazônicas de grande importância. Segundo o pesquisador José Urano de Carvalho, da Embrapa Amazônia Oriental, “o bacuri será seguramente a fruta nativa a conquistar novos mercados, depois do açaí e do cupuaçu”.
A Amazônia é o maior repositório de plantas produtoras de frutos comestíveis do Brasil, com 220 espécies, o que representaria algo em torno de 44% das 500 espécies de frutíferas nativas brasileiras. Destas a maioria tem origem extrativista - poucas foram domesticadas. Além do bacuri já citado, temos outras com potencial produtivo: abricó-do-pará (Mammea americana), uxi (Endopleura uchi), bacaba (Oenocarpus bacaba), pequiá (Caryocar sp.), tucumã (Astrocayum aculeatum), taperebá ( Spondias mombin), umari (Geoffroea spinosa), araçá-boi (Eugenia stipitata), buriti (Mauritia flexuosa), sorva (Sorbus domestica), marimari (Cassia leiandra), pajurá (Couepia bracteosa), abiu (Pouteria caimito), muruci (Byrsonima crassifólia), ingá (Inga spp.), mangaba (Hancornia speciosa), açaí (Euterpe oleracea), cupuaçu (Theobroma grandiflorum), camu-camu (Myrciaria dubia), cubiu (Solanum sessiflorum), murumuru (Astrocaryum murumuru), puruí-grande (Borojoa sorbilis), sapota-do-solimões (Matisia cordata), patauá (Oenocarpus bataua) e a pupunha (Bactris gasipaes), esta última consumida de forma cozida.
Algumas frutas nativas da Amazônia: araça-boi (1); )abricó-do-pará (2); guaraná (3); sapota-do-solimões (4); uxi (5); tapereba (6); buriti (7); bacuri (8); cupuaçu (9); tucumã (10); açaí (11); camu-camu (12); pupunha (13).
 Várias frutas nativas, até então de consumo local, como açaí, cupuaçu, pupunha e bacuri, ganharam dimensão nacional e até internacional, com isso, cresce cada vez mais a procura por essas frutas no mercado. A solução para enfrentar a demanda de mercado é investir em cultivos tecnificados e estimular a implantação de agroindústrias, aproveitando a imensa área desmatada da Amazônia. Embora a forma extrativista seja ecologicamente mais correta para o aproveitamento dessas frutas, mas esta forma se torna inviável com o aumento da demanda desses produtos, sendo a utilização de áreas desmatadas uma alternativa para o cultivo dessas espécies nativas que tem o seu fruto valorizado no mercado.
O açaí e o cupuaçu são exemplo de frutas que ganharam expressividade no mercado e já estão sendo cultivada em grandes áreas no norte do Brasil. O interesse surgiu com a crescente procura por frutas exóticas com grandes propriedades nutracêuticas, como o açaí, por exemplo, que é um alimento rico em proteínas, gordura vegetal, vitaminas (B1, C e E), minerais, fibras, etc. Mas uma importante propriedade deste fruto está na sua cor, mais precisamente na pigmentação que dá aquele colorido escuro ao açaí. As antocianinas presentes na casca são substâncias antioxidantes responsáveis por neutralizar a oxidação na parte externa das células, elas agem diretamente sobre os radicais livres. Dentre as frutas com maior poder de antioxidante do mundo, o açaí está entre as primeiras no ranking, de acordo com um teste desenvolvido pelo Instituto Nacional de Envelhecimento e pelo departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Das frutas amazônicas, o açaí é a mais consumida no mundo, sendo comercializado nas mais diferentes formas (sorvetes, picolés, alimento energético, acompanhado de outras frutas e cereais, bebida energética, geléias, etc.). Mas no Brasil a fruta é consumida como uma bebida natural, o “vinho”, como é chamado na Amazônia. O açaí ganhou uma projeção internacional nas indústrias alimentícias e comésticas, tendo sempre a imagem de fruta energética com propriedades antioxidantes. Hoje o açaí é vendido até no estado da Califórnia nos EUA. 
Extração e transporte do açaí pelos ribeirinhos da Amazônia.
 O cupuaçu é outra fruta que vem de crescente procura no mercado. Atualmente a maioria provém de plantios racionais, estimados em mais de 20 mil hectares, distribuídos nos Estados do Pará, Rondônia, Amazonas e Acre, principalmente (HOMMA, et al 2001). Quanto à produção de cupuaçu nativo, onde é retirada de maneira extrativista pelos povos da Amazônia, a área de maior ocorrência é o sudeste paraense, que tem sofrido forte pressão migratória nestas últimas três décadas, traduzido na constante destruição dos recursos naturais, em especial das áreas de castanheiras e de cupuaçuzeiros (HOMMA et al 2000). Na medida em que mais produtores são envolvidos nessa atividade, tende a limitar as suas possibilidades econômicas inviabilizando ainda mais a coleta extrativa. Com isso hoje o cupuaçu é uma das frutas menos extraída de forma tradicional da natureza.
O crescimento do mercado tem sido o indutor de produtores rurais para a expansão dos plantios racionais de algumas frutas nativas da Amazônia brasileira como o açaí e o cupuaçu, aliado ao custo de produção mais elevado da coleta extrativa, a despeito da existência desse recurso na natureza e dos plantios racionais serem realizados nas proximidades das moradias, facilitando o transporte, entre outros.
Para a população que vive da floresta o extrativismo ainda é forma mais preponderante, por mais que o mercado de algumas delas estejam em expansão e estas sendo cultivada em grandes áreas por produtores a maioria das frutas ainda é retirada de maneira tradicional, havendo menos agressividade ao meio ambiente. Com isso, essa extração deve ser incentivada na região amazônica, pois consegue aliar renda e conservação ambiental. Importância essa que deveria partir dos governos ajudando na implantação de programas de orientação familiar na extração, além de fornecer incentivos na formação de cooperativas que são de grande valia para melhorar a vida desses povos e comunidades, contribuindo até mesmo na preservação, tendo em vista que a floresta é que fornece o seu sustento.

 Referências: 
  • FREITAS, Eduardo de. "O extrativismo vegetal na região Norte"; Brasil Escola. Disponível em . Acesso em 18 de fevereiro de 2017.
  • HOMMA, A.K.O. (1990). A dinâmica do extrativismo vegetal na Amazônia: uma interpretação teórica. Belém: Embrapa-CPATU. (Documentos 53).
  • HOMMA, A.K.O; CARVALHO, R.A.; FERREIRA, C.A.P.; NASCIMENTO, J.D.N. A destruição de recursos naturais: o caso da castanha-do-pará no sudeste paraense. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2000. 74p. (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 32).
  • HOMMA, A.K.O; CARVALHO, R.A.;MENEZES, A.J.E.A. Extrativismo e plantio racional de cupuaçuzeiros no sudeste paraense: transição inevitável. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2001. 24p. (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 113).
  • MOTA, D.M.; SCHMITZ, H.; SILVA JÚNIOR., J.F. O extrativismo em tempos de globalização. In: Sociedade Brasileira de Sociologia, 13. Recife. Anais. Recife: SBS, 2007. Pesquisa financiada com recursos do MCT/CNPq.
  • REVISTA GLOBO RURAL: As frutas brasileiras ganham o mundo. São Paulo: Editora Globo, n. 256, fev. 2007.
  • SOUZA, L.A. Mundo Educação – Propriedades do açaí. Disponível em: http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/quimica/propriedades-acai.htm. Acesso em 10 de fev. de 2017

1 comentários:

Anônimo disse...

Adoro frutas do Norte do Brasil